Das coisas que não falamos
A verdade é que a vida é uma caixinha de surpresas.
Foi o que eu disse a ela, quando a resposta sobre sua bolsa de estudos não saiu.
Mesmo quando você pensa que tem um pouco de controle sobre as coisas, elas nunca ou, raramente, saem do jeito planejado. Tem gente que pensa que mudar de ideia ou não cumprir com alguma promessa é algo inadmissível. Até onde eu saiba, nós humanos, vivemos mudando de ideia e tendo imprevistos.
Faz pouco tempo que algumas coisas que eu planejei deram certo. E digo mais, elas vêm dando certo! Eu penso que algo seria bom pra mim, busco um contato, e a coisa acontece! Eu devia pensar em ganhar na Mega Sena, mas eu não penso nisso... Por isto que continuo pobre! Enfim, deixa pra lá!
Certas coisas não dão certo, ou melhor, eu penso que não vai ser bom pra mim no momento, então eu desisto. Mas tudo por uma questão de pensar: não seja tão louca quanto antes, não arrume 5 empregos!
Enfim. O fato é que, de uma maneira surpreendente, algumas coisas têm dado certo pra mim. Mas acontece que nem tudo é perfeito, eu encontro problemas em diversos lugares dentre estes que supostamente estão dando certo. Mas o fato mais importante dentre estes é que as coisas não acontecem comigo por puro acaso do destino! Não, eu tenho que correr atrás, e eu corro MUITO!!!! Aquela música do Cidade Negra tem tudo a ver "você não sabe o quato eu caminhei... pra chegar até aqui! Percorri milhas e milhas antes de dormir, eu não cochilei!" E por aí vai!
Mas eu não sei exatamente por quê as coisas têm dado certo. Às vezes eu penso que, enfim, estou aprendendo a fazer as coisas do jeito certo. Então eu lembro das experiências passadas que não deram certo, e vejo que eu já tinha feito coisas do jeito certo!
Outras vezes eu penso que eu devo estar me esforçando mais. Correndo atrás, sabe? Mas não, justo pelo contrário, agora eu me sinto mais cansada e percebo que estou fazendo as coisas de um jeito mais devagar.
O fato que estou querendo trazer, é que a gente não tem controle. A gente nunca sabe como é que as coisas vão acontecer. Eu não sei se amanhã eu vou ao médico e descubro que estou com uma doença séria e terei que interromper tudo. Eu não sei se um dia vou ao banco e sou "sorteada" para um assalto relâmpago, e roubam todo o - pouco - dinheiro que consegui juntar até o momento, e todo o dinheiro que eu tinha para comer e pagar o aluguel e minhas contas! Eu também não sei se vou embarcar no avião, porque eu consegui comprar AQUELA promoção, e justo ele faz capuf e eu me vou desta pra melhor!
A gente não sabe nunca se justamente na hora em que estamos no trem do metrô, vai chover tanto que ele vai parar de funcionar láaaaaa embaixo, e não vamos conseguir sair devido ao excesso de água.
E é nesses "não saberes" que a gente se perde. Porque a gente pensa que o cenário atual vai se manter. A gente pensa que o trabalho vai existir nos próximos meses e, por isso, a gente não faz o nosso melhor, a gente chega atrasado, a gente sai mais cedo, a gente vacila justo naquilo que a gente não precisava vacilar. E, quando menos espera, leva um tchau, passar bem...
A gente pensa que nossos pais sempre vão estar lá, para nos aturar, e justamente por isso a gente nunca lhes dá um presente, ou a gente nunca lhes prepara um almoço ou um jantar. A gente nunca senta para falar sobre um assunto que interessa a ELES e não a nossa vida: escola, dinheiro, trabalho, namoro. Não, a gente nunca demonstra que sem eles a nossa vida seria sem sentido. A gente leva a vida como se isso fosse existir, indefinidamente, até a nossa morte - sem parar pra pensar que, seguindo a linha lógica da vida, eles devem morrer antes de nós.
E aquele amigo seu? Aquela amiga? Com quem você sabe que pode contar - e você acredita que ele/a sabe que pode contar com você - e, de repente, esse amigo fala com você algo super importante e, por um descuido, você deixa escapar o assunto? E você, sem querer, acaba prejudicando a amizade dessa pessoa com outra pessoa? E você, sem se dar conta, acha que seu amigo vai lhe perdoar... E ele perdoa. Mas nunca mais confia em você. E você sofre sempre que percebe que ele não lhe conta mais seus segredos, que ele não lhe chama para os momentos mais importantes. É seu amigo, mas você percebe que ele não conta mais com você. E isso muda totalmente as coisas...
E aquele relacionamento? Você ama ele, ele te ama. Vocês se amam, não há dúvidas. Mas tantas coisas que poderiam ser ditas, tantas desculpas que poderiam ser pedidas, tantos carinhos que podiam ser trocados, tantos "boa noite" poderiam ser dados... E não são. Por quê? Por que você guardou rancor por um e-mail que não foi respondido? Por que você guardou mágoa quando ele não lhe cumprimentou pelos meses de namoro? Por que você lembra daquela frase chata que ele te deu naquela primeira semana de namoro e isso te magoa até hoje? Por quê, por quê?
Por que a gente fica guardando mágoa, e isso nos deixa insensíveis... Não ao outro, mas a nós mesmos. Por que a gente fica juntando os trapos daquilo que não prestou, ao invés de jogá-los fora e iniciar um novo momento cada vez que isso acontece? Por que é tão difícil para nós perdoar?
Sim, perdoar. Mágoa, rancor, lembranças mal-resolvidas... Nenhuma palavra resolve mais isso tudo do que o perdão. É o jogar esses trapos fora. Queimar, largar, soltar para o vento levar, jogar no mar, enterrar.
Mas a gente fica lá, remoendo as coisas, e aí não permite A SI MESMO sentir aquilo que o relacionamento pode proporcionar. E a gente pensa que ao invés de ouvir os conselhos do outro, é melhor jogar na cara tudo o que o outro fez. A gente não consegue deixar pra trás. E aí, essas coisas ficam sempre na nossa frente. Impedem a gente de ver. De sentir. De viver.
E a gente pensa que sempre vai ser assim. E cada vez o entulho fica maior. E, quando menos esperamos, ele desmorona... E nos leva consigo.
Esse desejo de controle ou, esta ideia de controle, impede que a gente viva a vida da melhor maneira. A gente quer controlar as filas, e fica esbravejando quando elas ficam paradas e funcionam do jeito que não queríamos. São tantas coisas que a gente pensa controlar, mas na verdade, não controlamos nada.
A verdade é que a vida pode ser simples. Pode ser descomplicada. Pode conter falhas, de todos os lados.
Mas a gente quer que ela seja redondinha, lisa, sem obstáculos, girando no ritmo que planejamos.
E aí a gente nunca está satisfeito.
Seria tão bom poder dizer "te amo" quando a gente fica ali, dizendo qualquer coisa, perguntando se o Céu tá azul.
Seria tão bom conseguir dizer "me perdoa" quando a única coisa que a gente consegue dizer é "Seu telefone já voltou a funcionar?".
Seria tão bom ser diferente... Mas a gente é assim. Eu sou assim. Imperfeita.
"Falta tanta coisa pra dizer, que nunca consigo..."
Um comentário:
Já dizia a mãe de Forrest Gump que a vida era como uma caixa de bombons. Nunca se sabe o que vai ter lá dentro.
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