Um almoço em família
Confesso que há muito tempo não tinha esse tipo de crise. Achei que tivesse superado as expectativas de infância e de adolescência. Achei que já tivesse me acomodado com aquilo que a vida tinha me apresentado. Mas hoje eu vi que não.
Tudo porque eu fui para um almoço de família.
Acontece que eu vi uma família com uma avó fora do sério! Era a avó dos meus primos, que não é minha avó. (um exercício mental para vocês descobrirem que não tenho laço sanguíneo com ela!)
Ela fazia de tudo. Não parava! Preparava as comidas, ajeitava tudo, mas ela mesma não comia. Todos acomodados, 3 casais com seus filhos, ela, seu marido e eu. Bem, eles tentaram fazer com que eu me sentisse em casa, mas o fato é que não dava, aquilo era estranho demais para mim! Uma família "em harmonia", por assim dizer. Aquela avó típica, carinhosa com seus netos, gentil. Conversas sobre trabalho. Todos falando sobre seus filhos e sobre como eles se comportam. Conversas sobre alternativas para ganhar mais dinheiro - já que a vida anda difícil para todo mundo. Um pouco de vinho. Um pouco de bebida alcoólica.
E nenhuma discussão. Nenhum bate-boca. Nenhuma conversa sobre rancores.
Teve um momento em que eu pensei se todos escondem suas vidas e mostram apenas a parte que é mais "aceitável". Mas uma das pessoas presentes parecia estressada com o filho, e deixou transparecer isto. Eu lembrei da outra vez que ali estive, e foi a mesma sensação. Quer dizer, quase a mesma, porque agora estou num momento de vida totalmente diferente.
Essas coisas me chocaram mais do que eu podia supor!
Pois é, eu sempre tive avó muito próxima, por parte de mãe. Mas ela não era assim tão amável, pelo contrário, parecia SEMPRE estar estressada, parecia nos ver como estorvos na vida dela (sim, eu e meus irmãos éramos TERRÍVEIS, mas até aí minha mente de criança não conseguia compreender). Lembro de coisas boas dela, lógico, ela era legal. Mas ela escondia os doces de nós. Ela brigava por quase tudo o que nós fazíamos. Parecia que nada nunca estava bom pra ela. E ela sempre procurava agradar mais minha prima cuja mãe faleceu de um acidente. Ou seja, nunca achei minha avó amável. E a avó que eu vi hoje, me impressionou quando, ao final de tudo o que ela havia feito, ainda entregou um pacote de salgadinhos para TODOS os netos levarem!!! Minha avó nunca fez isso. Quer dizer, eu não lembro, pelo menos. Ela sempre ENCHIA muito o saco, reclamava de tudo. Quando ela ia pra Blumenau então??? Ela enchia o meu saco porque 6 horas da tarde eu tinha que estar em casa, de banho tomado, jantando, e eu ficava brincando e só voltava às 8 horas da noite. Mas eu tinha MUITOS amigos, e Blumenau era diferente. Por que ela era tão chata??? Ainda não sei. Se ela fosse viva, eu certamente lhe perguntaria isto.
Mas minha avó jamais daria um pacote de salgadinho pra gente, pelo contrário, ela escondia as coisas de nós!
O mais impressionante nem foi isto. Foi o fato de que, na minha família, todas as reuniões que tinham com minha avó sempre eram distantes do meu avô. Minha avó tinha depressão, e todas as suas falas eram quase sempre chorando. Ela, inclusive, sempre falava mal do meu avô. E minha tia sempre brigava com meu tio, que sempre estava bêbado. Eu gostava de vê-lo bêbado, caso contrário ele era muito chato conosco. E quando ele bebia, ele ficava um pouco mais legal.
Então, as minhas reuniões de família por parte de mãe sempre eram assim, permeadas de dramas, cheias de reclamações das pessoas... Resumindo: muito sofridas.
Depois que eu cresci, passaram-se muitos anos, até que muita coisa acontecesse em minha família e eu me distanciasse um pouco deles. Principalmente do meu pai, pois após seu segundo casamento, sua esposa atual tem tornado nossa vida um verdadeiro inferno. Quer dizer, a minha ela não torna mais, pois não estou mais perto dela. Mas ter que me distanciar de meu pai não foi algo muito fácil de fazer. E tem horas em que eu sinto falta dele, mas quando eu penso em todos os contras de estar perto, eu prefiro ficar longe. A triste verdade é que ele foi quem preferiu isto. Ele foi quem preferiu ficar com uma pessoa que só causa coisas ruins para todos nós. A escolha não foi minha, foi dele. Eu apenas estou tomando a decisão de me manter longe e respeitar sua escolha. Mas eu confesso que não é nada fácil, nem nunca foi.
Depois que minha avó faleceu, restaram minha mãe e 2 tios. Eu tenho mais contato com uma tia. Quando há reuniões familiares, elas são repletas do que me parece uma falsa alegria. Algumas pessoas da família se esforçam para contar piadas e tentar fazer as pessoas rirem, mas quando se passa ao menos 5 minutos sem estas coisas, lá começam os assuntos repletos de rancor. Repletos de mágoa porque alguém agiu assim, porque fulano fez assado, porque a vida inteira foi de tal e tal jeito. E existem discussões, muitas das vezes.
Acontece que essa vivência familiar sem brigas, sem discussões, eu só tive com o lado da família por parte de pai. Minha avó paterna mantinha as coisas sempre nos eixos. Tudo acontecia conforme ela determinava, e todos a respeitavam, e sempre que havia encontros na casa dela todos se entendiam, não havia discussões, gente falando alto, murmúrios. Pelo contrário. E eu morei 1 ano com ela. Foi um período muito difícil para mim, afinal morei numa cidade grande pela primeira vez, era muito adolescente e imatura (não que eu seja muito madura ainda hoje, mas eu era beeeeem criancinha mesmo!). Com minha avó aprendi muitas coisas. Adorava conversar com ela, principalmente, eu tirava muito sarro dela. Achava ela muito séria, então eu vivia fazendo piada das coisas que ela dizia. Ela pegava no meu pé. Mas a gente se entendia bem!
O que mais acompanhei foi o sofrimento da minha tia cuidando dela. Ela já exigia muitos cuidados por estar muito idosa e era minha tia quem segurava o rojão. Eu acompanhei tudo e sempre disse que não sabia como minha tia agentava aquele ritmo! Mas ela aguentava. E teve um período em que ela se machucou e boa parte do que ela fazia, quem passou a fazer fui eu. Eu tentava, mas não conseguia fazer tudo, logo minha tia reassumiu algumas atividades e muitas outras eu continuei fazendo sozinha até ela sarar. Ela levou uns 3 meses para sarar.
E, quando eu fui embora, sempre lembrava de todos os horários de remédios da minha avó. Lembrava de muita coisa. Cerca de 6 meses depois, ela faleceu. A última coisa que ela escreveu foi um cartão de aniversário para mim.
Este período foi o que eu mais tive contato com essa avó. A maior parte do tempo eu tive contato com minha avó materna. E com a família materna.
Muita coisa boa eu aprendi com ela! Tem momentos em que eu sinto muita saudade dela, queria poder lhe contar certas coisas, ouvir suas opiniões. Mas sei que isto não é possível.
Hoje eu voltei pra casa pensando que as famílias podem ser coesas. Podem ser melhores. Podem ter bons relacionamentos. Ver avós e mais 3 casais de filhos com seus netos respectivos, reunidos, sem nenhuma conversa sobre mágoas ou rancores, sem discussões, com bebida alcoólica mas sem ninguém terminar embriagado, foi algo que me impactou.
Eu não sei se algum dia eu poderia ter uma família assim. Não sei pelo simples fato de que eu sou diferente. Hoje em dia eu sou mais tagarela um pouco, falo muita bobagem, mas ao mesmo tempo eu sei que eu sou uma pessoa séria. Muita gente diz isso e eu não consigo dizer que não. Eu fui uma criança séria, sempre. Mas o mais impressionante foram as conversas familiares, e eu não sei se eu conseguiria levar uma vida tão fechada no desenvolvimento da família.
Não quero ser tachativa nem usar de estereótipos! Apenas me deparei, hoje, com aqueles tantos sentimentos que eu tinha quando eu era criança: que eu queria ter meu pai mais perto, que eu queria que minha avó fosse mais legal, que eu queria poder passar um Natal sem falar mal do meu avô. E eu queria ter uma família diferente.
Mas ela não é diferente. E eu estou aqui, para escrever uma história diferente para meus sobrinhos, quando eles vierem a exisitir...
3 comentários:
E pros seus futuros filhos?
Por hora, não posso garantir que terei filhos. O mais provável é que eu tenha sobrinhos, mas filhos, é uma coisa que só pretendo ter quando eles puderem ter um pai presente. Enquanto este "pai" não se configura, prefiro não pensar em filhos. Entende? ;)
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