Existência e sofrimento
Ele foi falando de tantos temas, não imaginei que fosse tocar neste assunto.
Falamos de filosofia, de economia, de memória... até chegar neste tema.
Dá pra imaginar que eu já não estava assim tão "concisa" quando chegamos neste ponto do assunto?
Pois é... E sem que eu imaginasse, entramos neste assunto.
Tive que conter as lágrimas e fazer de conta que estava no momento mais intelectual da minha vida. Tomei nota de tudo o que foi falado. Fiquei em silêncio, pensando. Mas confesso que tive que conter as emoções, neste momento.
Passaram-se dias para que eu me desse conta disso.
Havia um sentimento represado, que precisava sair.
Fazer psicologia é isso, é entrar o tempo inteiro em contato com a própria história de vida e com sentimentos que até então você não se dava conta. Poucas pessoas conseguem fazer isso com certa "naturalidade". Natural, mesmo, nem a natureza é. Mas levar isso como algo que acontece e que é necessário acessar para que você seja um pouco mais "inteiro" nesta vida. É assim que você vai entendendo que não dá pra fingir que as coisas não estão acontecendo com você.
A maioria das vezes a gente vai vivendo a vida criando alguns modelos de ser humano, pensando que viver é agir "assim" ou "assado". E olhamos para nossos pais, pensando em tudo aquilo que eles deviam ter sido e não foram. Enquanto conseguimos e toleramos olhar pra eles e pensar em tudo aquilo que nós também poderíamos ter sido se eles tivessem sido de outra forma, e suportamos a dor de olhar os defeitos deles, os nossos, da sociedade, das pessoas, da comunidade... Sim, nos revoltamos, choramos, estribuchamos, protestamos, colocamos a boca no mundo.
Mas nem todos conseguem olhar e perceber estas coisas. Creia, se você nunca pensou nisto, te faltou um pouco de coragem: por melhor que seja a vida das pessoas, sempre vamos ter condições de encontrar defeito na vida que tivemos!
Acontece que chega uma hora em que olhar para estes defeitos, estes problemas, começa a atingir o ponto da insuportabilidade. Não conseguimos mais! Então, passamos para o outro ponto, que é encontrar as mais diversas desculpas para as situações que deviam ter sido diferentes e não foram! Justificamos as atitudes das pessoas, sem que elas nunca talvez tivessem se dado conta do que fizeram. Sem que elas mesmas se justificassem, nós passamos a justificá-las. Não raro, começamos a idealizar seus comportamentos, até o ponto de torná-los nossos pseudo-herois.
Quando atingimos este ponto, é porque o entrar em contato com as dores da existência se tornou muito difícil.
Quem resolve entrar pra área de humanas, principalmente psicologia e filosofia, resolve entrar em contato com a própria vida. Com as escolhas erradas, com os sofrimentos da existência, com as questões das quais nós tentamos fugir tantas vezes quantas forem necessárias para ter uma vida mais próxima dos ideais que traçamos.
Tem horas em que tudo na tua vida parece estar indo bem. Tu estás trabalhando, tu estás com saúde, tu estás vivendo bem, tu até te apaixonando estás! Mas uma existência sem sofrimento, sem crises, sem questionamentos parece uma existência anestesiada. Porque não há como existir sem sentir estas coisas!
E, tem horas em que parece mais fácil simplesmente dizer "não quero falar sobre isto, vamos falar de coisas boas". Mas não é o falar [ou o deixar de falar] que faz com que o sofrimento seja arrancado da nossa vida. Ele está lá. E optar por não falar, apenas é mais uma forma de transferir a dor de existir para outras dores... Falar ou não é uma opção. Mas o corpo fala por nós, por meio de outros "sons" que não a voz...
E a existência sempre será permeada por isto. Se fará nisto. Sem isto, não terá o desejo de permanecer vivo, de sentir que se está vivo, mais do que as idealizações e os estereótipos podem tentar nos convencer.
2 comentários:
Se conhecer sempre é dolorido. Mas sempre compensa.
É... às vezes, descompensa. hehehe Mas aí a gente trabalha pra voltar a compensar. :P
Postar um comentário