Eu vou lutar!
Ontem eu chorei.
Por lembrar daquela garota... Tão jovem, tão inocente, tão saudável e... condenada.
Órfã de pai há certo tempo, sua mãe por diversos anos não lhe permitia sair de casa. Foram anos em que só as duas conviviam dentro de casa.
Seu irmão tornou-se um marginal, sua mãe sempre fez vista grossa e o tirava da Febem e depois da prisão, quando "precisava".
Quando ela começou a sair de casa, aos poucos, indo ao portão e à calçada [depois de ANOS], começou a ter certas crises, certos chiliques. Até que em alguns momentos, batia na mãe. Porém em sua casa a lei da violência sempre imperou, não posso dizer que ela queria de fato BATER na mãe. Essa era a linguagem deles, que ela começou a reproduzir depois de começar a sair de casa, já depois dos 20 anos de idade.
Eis que uma vez ela empurrou a mãe, e a mãe caiu na rua, bateu a cabeça e dias depois foi pro hospital. Semanas depois, a mãe faleceu, por causa da queda e de outros problemas de saúde que já tinha.
Essa moça ficou sozinha. Seu irmão, marginal "arrependido", "convertido", não queria saber dela.
Acontece que ela é uma pessoa boa, que foi trancada dentro de casa por vários anos.
O irmão, entre frases como "quando eu era do crime, me respeitavam. Agora que eu faço tudo certo, as pessoas não me respeitam. Não custa nada eu voltar a ser do crime então..." e outras como "quero internar minha irmã. Se eu for preso, o Estado vai cuidar dela então? Então compensa mais eu ficar preso por um tempo...", sim, ele ameaçou pessoas do meu trabalho.
Mas ninguém tem medo desse infeliz.
Exceto a garota. Que de uns tempos pra cá começou a ficar com medo dele. E sua vizinha, que deixou de ajudá-la.
Até que a garota sumiu...
Descobrimos que ela foi condenada. Mas a condenação dela não é a usual, ela foi condenada a uma das piores penas que alguém pode ser condenada: o hospital psiquiátrico.
Vinte e poucos anos. Saudável, sem nunca mais ter "crises", começando a se apropriar de alguns direitos que lhe foram negados ao longo de sua vida.
O juiz mandou interná-la. Nem os médicos sabem o que ela está fazendo lá!
Acontece que, como ela, existem milhares no Brasil. No mesmo hospital, já tem um há um ano na mesma situação. Em outros, existem pessoas há 30 anos, ou até mais.
Esse é o resultado de uma família doente. A atitude de um irmão que a Lei não o impede de nada, levou essa garota para pagar uma pena, a pior de todas.
Entopida de remédios desnecessários. Com a vida interrompida, praticamente.
Não duvido que ela de fato fique doente.
A psiquiatria permitiu por longos anos que atrocidades como essas ocorressem. Permitiu que milhares de pessoas fossem condenadas a serem "pacientes psiquiátricos", sem vida, sem horizonte, sem perspectivas. Seu aval "científico" só serviu a um sistema que quer excluir e precisava de justificativas para isso.
Ontem eu chorei. Porque há poucas semanas eu estava em contato com essa garota. Agora, não há perspectivas de que a reencontre...
Esse mundo precisa de um pouco de justiça!
Essa é a nossa luta ANTIMANICOMIAL! Contra os manicômios, contra essa CULTURA antimanicomial que permite que atrocidades como essas aconteçam!
O tema da Luta de 18 de maio desse ano, incluiu um protesto em frente a um desses hospitais. Tudo, porque um cara foi impedido de se tratar num CAPS de São Paulo, e foi internado NESSE HOSPITAL e, assim que ganhou alta, a primeira coisa que ele fez foi se SUICIDAR embaixo do vão livre do MASP, próximo ao CAPS que o rejeitou.
Serão precisas mais QUANTAS MORTES para que as coisas mudem???
EU NÃO ME CONFORMO!!!
10 comentários:
Lembrei do conto do Machado de Assis que o Dr manda internar um, depois outro... quando vê internou todo mundo da cidade! Dai ele manda soltar todos e se interna!
valeu por compartilhar isso! não sei muito o que fazer, mas quero lutar na luta antimanicomial também!! dá umas dicas como pobres mortais como nós podemos fazer isso!
Pelos comentários, dona juju, vc acabou plantando uma sementinha já, na sua luta.
@Perdido: o Machado tem histórias que são usadas até em concursos para abordar esse tema da loucura!
@tobiast: vou responder mais adiante, para todo mundo ler, ok? Legal o comment!
@Andarilho: "sonho que se sonha só é sonho, sonho que se sonha junto é realidade", dizem. A luta não é minha e não pode ser só mminha... Todos fazemos parte dessa realidade... Um pouco de esperança brota quando alguém começa a tomar consciência de certas coisas. Se for "alguéns", será ainda melhor! ^_^
Obrigada a todos que têm comentado! ^^
Hum... pessoas à margem. Não estamos acostumados e não sabemos lidar com elas, acabando por preferir largar por aí, ou o que pode ser pior, largar em um lugar fechado somente para elas.
Não conheço muita coisa a respeito de manicômios e afins, mas eu sei de uma coisa, todo sujeito é livre pra conjugar o verbo que quiser.
Então essas pessoas que hoje estão internadas nesses hospitais merecem estar livres? Acredito eu que sim, se eu mereço, eles devem merecer tb. Mas o que fazer?
Pq eu também acredito que nem todos eles estão à vontade para o convívio social, da forma como eu e você convivemos. Como tratar? Como cuidar? Quais são as alternativas? Como nós, pessoas que não estão tão à margem, nós que nos consideramos, ahn, 'normais', por assim dizer... o que NÓS PODEMOS FAZER DE EFETIVO?
Acredito que essa não seja uma luta somente do meio psi.
Não se conformar, não se acomodar, é o primeiro passo, xuxu. E o que podemos fazer para mudar seu inconformismo?
A estória da garota me lembra um pouco o filme "Bicho de 7 cabeças". Talvez seja preciso que a arte meta seus dedos na questão. Ela tem força pra mobilizar...
Muito sábio o que o João Catraio Aguiar disse
Bueno, guapa...
Como eu disse, precisamos lutar sempre. Gostei do comentário no Poste do SUS.
Agora falando da luta antimanicomial, eu participei ativamente dela na época em Brasília. Concordo contigo e acho que as coisas estão andando neste sentido. Precisamos nos mobilizar para que histórias como a da menina não continuem ocorrendo.
De mais a mais, acredito que possa ser feita alguma coisa. Bem, provavelmente ela tem uma condenação, como vc disse. Talvez possa ser impetrado um mandato de segurança anulando o processo. O phoda é que isso só pode ocorrer se alguém assumir LEGALMENTE a custódia dela. E, se ela é uam garota difícil, essa possibilidade é bem remota.
Hum, talvez fosse bom pensar mais longe. Não há nenhuma instituição não-manicomial que poderia aceitar recebê-la caso isso acontecesse?
Manda um e-mail.
Beijão...
@João Catraio: TODA mobilização será bem-vinda! A diferença dessa história pra do filme citado, é que no filme o erro foi um diagnóstico médico! No caso da garota que falei, o caso é de justiça... É mais complicado ainda!
@David: concordo!
@Poeta: bem, eu trabalho em 2 instituições que estavam acolhendo a garota. Ok, ela não ia dormir, mas nós a acolhíamos e estamos abertos para acolhê-la. No caso, não tendo irmão, o Estado iria nomear outras pessoas para tutelarem, no caso já era a vizinha que renunciou devido as ameaças do irmão. Tem outros parentes que ainda NEM FORAM acionados... Mas serão, se depender de nós, faremos todo o possível para mudar a situação. Não havendo nenhuma PESSOA, existem albergues, que não são manicomiais... Além dos albergues, existem as Residências Terapêuticas, que são destinadas às pessoas que não têm necessidade de estar num hospital psiquiátrico e não têm família para receber depois da alta. Não são manicomiais, apesar do nome sugestivo...
@Ana P.: amiga, vou responder em breve, juntando com o seu comment e o do tobiast. Tá bom? De fato, não é uma luta só do meio psi... As coisas vamos construindo JUNTOS, todo mundo numa coisa só, por isso tenho pensado [e postado] no quanto a realidade do outro me afeta. Afeta, sim... ;~)
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