terça-feira, 29 de julho de 2008

O que sente um(a) psicólogo(a).

As pessoas costumam ter uma idéia muito estereotipada do que é ser psicólogo. Dizem que é só ficar ouvindo e cobrar no final, ou que é um amigo pago, entre outras coisas. Eu mesma já tive muitos preconceitos acerca da minha atual profissão.
Mas o fato é que, quando o psicólogo está de fato interessado no seu trabalho, uma das coisas que ele vai constatar é que ele precisa ser uma pessoa mais "próxima" dos seus clientes. Em psicologia, fala-se em empatia, que sem a tal da empatia o vínculo não se consolida - e uma psicoterapia só acontece se houver um bom vínculo. Para ter esse vínculo, o profissional precisa se despojar um pouco do seu lado "profissional" e sentir muito. Tentar sentir o que a pessoa traz, tentar acolher o que a pessoa traz. Ou seja, a profissão de psicólogo exige que o profissional não seja neutro, ou frio. Ele tem mesmo é que sentir as coisas, reconhecer que sente medo em determinada situação, reconhecer quando fica feliz e quando parece sentir a dor da pessoa que o procura. Por vezes, esse reconhecimento se dá só pra ele, mas se ele não tiver esse reconhecimento nem que seja só pra ele mesmo, a pessoa não sente a empatia e o vínculo fica meio estranho.

Hoje, fizemos uma festa de despedida minha e de outra colega, da unidade de saúde em que eu trabalho. Vamos pra outra instituição na próxima semana, mas o dia foi escolhido pela maior presença de usuários [que alguns insistem em chamar de pacientes, mas eu chamo de usuários] e também pelo fato de hoje ser o dia em que eu fazia um grupo de canto, e que minha amiga também fez um grupo aberto. Eu e ela montamos toda uma programação para a despedida, convidamos todo mundo, eles trouxeram comes e bebes. Foi muito legal e marcante. Formamos uma roda com cerca de 40 pessoas, entre usuários, técnicos e funcionários da limpeza. Eis aí nossa visão de trabalho, claramente apresentada, e que foi dita à equipe técnica desde o início, porém a equipe majoritariamente não aceitava nosso jeito. Mas era o nosso espaço e a nossa despedida, e fizemos algo com a NOSSA cara. E muitos choraram, todos os usuários lamentaram nossa partida, alguns técnicos não tiveram coragem de entrar na roda [acredito que alguns sentiram suas consciências pesarem], outros não quiseram sair nas fotos [pelo mesmo motivo dos anteriormente citados].
O fato é que nossa mensagem foi dada. Nos surpreendemos muito com a adesão dos usuários, com o quanto eles se prepararam, pelas coisas que trouxeram para comermos, e pelo quanto eles participaram da nossa proposta! E quando não era a hora, alguém pegava e interrompia a "programação" para dizer "eu quero falar que eu vou sentir falta de vcs, porque vcs são muito legais, mas nós vamos continuar nos encontrando na outra instituição". E, quando as músicas haviam acabado, alguém começava a cantar "amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito..." e "nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia...". Foi lindo. Foi mágico. Foi... recompensador.

Eu ainda acho que qualquer profissional de saúde deve ter sua motivação na pessoa que atende. Porque se a motivação for apenas a pessoal, o salário nem sempre estará bom, e a equipe muitas vezes será repugnante! Então... Se seu foco for a pessoa que é atendida, ele vai se sentir sempre mais motivado. [isso foi tipo um parêntesis]

Tudo isso dito, falo que talvez o que mais tenha chamado a atenção dos usuários foi a forma como eu e minha colega nos aproximamos deles. Com alguns eu voltava à pé uns trechos, eu discutia sobre futebol, e ficava pegando no pé deles. E retrucava, chamava a atenção! Inúmeras foram as vezes em que eu saí da "sala dos técnicos" para me juntar com os usuários no pátio, ficar falando de tudo e mais um pouco! Ouvir aquelas que me chamavam pra ir morar com elas, que ficavam me dando dicas de comidas que eu podia fazer, gente que queria me "adotar" e aqueles que eu tinha vontade de levar pra casa...

E é esse sentir, esse aproximar, esse "igualar" que eu acredito ser um dos principais fatores modificadores. Não teria tanta riqueza de experiências se não me aproximasse deles. Nem veria o progresso de alguns se eu não me oferecesse pra voltar com eles certos trechos e ficar discutindo coisas "da vida", como o namoro deles que estava errado, o uso de drogas, o relacionamento familiar... Tudo, em conversas em direção ao metrô ou ao ponto de ônibus, ou à padaria.

O que um psicólogo sente, ninguém faz muita idéia. Pois para que alguém se sinta bem em lidar com um psicólogo, é necessário que esse psicólogo se abra para sentir muita coisa. Se assim não for, ninguém vai continuar com muito contato com esse psicólogo. Se um psicólogo não consegue reconhecer aquilo que sente com seus clientes, tampouco conseguirá ajudar muito. E o que eu creio que seja o fator mais importante num atendimento, é amar a pessoa que chega. Amar como ela é, aceitá-la, acolhê-la. Amar no sentido mais "puro" da palavra... E é esse amor que eu peço a Deus. Que meu coração não esfrie e que eu nunca atinja a neutralidade que alguns fingem atingir... Pois essa neutralidade de fato não existe. Que Deus me conceda esse amor.

E é em meio a tanto sentimento, que digo o quanto é difícil nos separarmos dessas pessoas! A hora do fim é muito difícil de ser vivida! Dá um apêrto... Mesmo sabendo que isso é necessário. Necessário, porém doído.

7 comentários:

Andarilho disse...

Que post lindo...

Despedidas sempre são tristes, mesmo que necessárias.

Anônimo disse...

Adorei!!!!
É Jú, realmente foi uma experiência e tanto!
O mais importante é que comprovamos na prática que tudo aquilo que parecia diletância maluca da nossa cabeça, dá certo e bons resultados. Espero que essa vivencia, assim como nos marcou, tb marque os usuários e técnicos e promova transformações em todos nós.

OBS: Gosto muito de trabalhar com essa menina. É uma psicóloga diferenciada!!!

Dê

Anônimo disse...

Acho psicologia fascinante. Se não fizesse cinema, minha grande paixão, faria psicologia.

Unknown disse...

Pôxa, Ju! Adorei esse post!
Beijos!

Fefa Liguori disse...

Muito bacanudo esse post. Despedidas são sempre ruins, porém necessárias, não é?

Mas muitas outras pessoas vão se aproximar, outras despedidas vão acontecer e por aí vai.
E que seja sempre uma experiência enriquecedora.

Márci disse...

Olhaaa...acho que afinal vc tem orgulho da sua profissão, e gosta do que faz..e está se aperfeiçoando cada vez mais e mais...

Parabéns Jú. Definitivamente CRESCENDO COM FÉ.

E boa sorte na nova unidade.

Bjooos guriaaaa !

Erick Macau disse...

o Brasil precisa de mais gente como vc.òtimo post!

sim, eu vi vanilla sky.ótimo filme: suspense puro.o telespectador precisa pensar muito e estar atento para entender.

eu vim dum lugar onde muitos vieram, onde plantaram suas ideías e crescream raizes estranhas.
Mas vou prum lugar por ai, onde regar possa minha identidade e ser feliz.

abraços libertários